Questiono com freqüência as revoluções que marcaram o mundo na década de 60.
Em meio a efervescência natural da juventude, levas de gerações foram exortadas a falar, colocar para fora os seus pensamentos, fazer livre a expressão, com a franqueza e atitude que levaram muitos para o cárcere e a morte.

Pagamos um preço alto por essa liberdade, mas como a linguagem é decorrência natural da vida, não refletimos sobre ela. Estamos imersos num oceano de palavras, mas não percebemos isso, como os peixes não devem perceber o oceano ao seu redor. Em cinqüenta anos, nosso acervo cresceu em profusão, nosso vocabulário acolheu novas palavras criadas na música, na poesia, na tecnologia, na informática, nas ruas, e ainda assim, usamos o repertório mais pobre que já tivemos.

Falo de palavras que querem representar tudo, mas não representam nada, como as gírias que adotamos. Como a lagartixa, as gírias têm autotomia, ou seja, elas podem ser quebradas em partes e se regenerar depois e também são bisexuadas, extremamente férteis, se reproduzem com facilidade, alastrando o veneno que corrói nossa língua portuguesa.

Nosso dia-a-dia está repleto dessas palavras e os padrões mudaram tanto que o coloquial, antes usado como uma linguagem mais íntima, permitiu a entrada das gírias, e o que era coloquial antes, agora é considerado linguagem formal. Será que não está na hora de começarmos um movimento pela palavra certa?

Que mudanças ocorreriam em nossas vidas se usássemos mais corretamente as palavras, e por que não ir além - se abusássemos de palavras positivas? Na minha família eu tenho dois exemplos de gerações em pontas extremas: minha filha e minha avó. Com três anos, ampliando seu oceano de palavras, Lorena absorve e repete tudo o que ouve. Meu papel é mostrar a ela as palavras adequadas, as que devemos e as que não devemos usar. Tarefa difícil de executar tendo como concorrência a criatividade e mediocridade das loiras televisivas. Mesmo quando dou a bronca por suas pirraças, procuro usar palavras positivas, que sirvam para educar minha filha, e não amedrontar ou humilhar. Acredito que esse seja um diferencial no nosso relacionamento.
Usar palavras positivas e divertidas faz bem à saúde: franzimos menos o cenho e gargalhamos mais.

Na outra ponta, minha avó, com 85 anos. Jamais alcançarei seus conhecimentos literários, seja pela enorme prateleira de livros que ela leu do início ao fim, seja pela diferença no relógio do tempo que nos separa. Vivendo no interior, era assinante da revista mais atual em 1940, e acompanhou os movimentos culturais e políticos com crítica e lucidez. Com todo o acervo de que dispõe e uma memória invejável, minha avó Geralda é capaz de discursar com facilidade sobre qualquer assunto, transitando as palavras com simplicidade. Todos que tem a oportunidade de um café com ela, ficam encantados com sua linguagem elegante. Ela não usa palavras maledicentes, não usa gírias ou palavrões, nem palavras que precisamos consultar no dicionário. Ela tem as palavras certas, no momento certo.

Proponho aqui um exercício: da próxima vez que for falar, pense que em vez de tirar as palavras de seu repertório metal, está colhendo as palavras como se fossem flores no seu jardim. Selecione as mais belas e viçosas e entregue para seu interlocutor. Observe as reações das pessoas, e principalmente, como você se sente usando palavras certas que guardam tanto poder.