A construção de uma gramática

Por Ana Erthal

Leonardo da Vinci anotava suas idéias científicas em pequenos cadernos, chamados Códices (Codex). Acredita-se que ele tenha escrito pelo menos 24 mil páginas, mas só seis mil são conhecidas. Suas anotações têm uma peculiaridade: a escrita espelhada, da direita para a esquerda - uma criação de gênio. Dizia a lenda que essa composição permitia que Leo cometesse erros e omitisse detalhes-chave de suas concepções e idéias em seus rascunhos, a fim de proteger suas próprias patentes de invenção. Mas a escrita espetacular não era nem fruto de dislexia, nem de uma necessidade de confidencialidade: Leonardo era canhoto e escrevia dessa forma para não sujar suas mãos na tinta.

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Depois de quinhentos anos, a internet inaugura novos códigos de escrita, por muitos motivos, mas dois principais (creio eu). O primeiro é a urgente escassez de tempo. É mais fácil abreviar as palavras, incluir um emoticon ou um símbolo do que ficar dedilhando o teclado. A segunda é a vontade de representar-se para o leitor. Ao incluir desenhos e carinhas em nossas mensagens, tentamos mostrar para nossos interlocutores como estamos nos sentindo naquele momento: “hj x-( ”, que significa: “hoje meu cérebro parou, não consigo mais pensar”. Quando escrevemos “kd vc, intao, plizi, num da”, estamos representando nossa fala, desejamos materializar nossa voz outro lado do ecrã, usamos nossa linguagem oral na escrita.

Essa nova linguagem que usamos no msn, nas salas de chat e nos e-mails não é errada. É uma forma de escrita, que criamos colaborativamente, em que cada um entra com sua parte. Além de não ser errada, também não nos faz mais ignorantes ou menos hábeis na utilização da nossa língua portuguesa. Já foi constatado que escrevemos e lemos muito mais com a internet. Tente calcular quantas páginas você visita diariamente e quantos e-mails responde, ou quantas msgs troca no msn – dá quase um livro por semana. Por isso, lemos menos livros. Talvez nosso vocabulário empobreça. Mas criamos e estamos construindo uma linguagem eficaz na comunicação.

Eu, que ainda pertenço à geração com formação literária clássica - silêncio, conforto, somente a companhia do chá de hortelã -, confesso que fica difícil ler com tantos desenhos pulando na tela, intercalando palavras, mas acho graça, e até adiciono alguns.

Passei boa parte da minha adolescência escrevendo cartas para minha prima Beatriz. Eu, do interior de São Paulo, ela, no interior do Rio de Janeiro. Queríamos contar todas as aventuras dos últimos dias, em detalhes mínimos, o que consumiu muitas árvores, jamais economizamos papel. Quando as paqueras começaram, nos deparamos com um problema: “e se a mamãe ler essa carta?”. Então, num verão juntas, criamos nosso Código, que foi refinando até o instante em que ficou indecifrável para qualquer pessoa. Escolhemos a dedo as amigas que teriam acesso. Tão “eficiente” nosso alfabeto, guarda segredos a sete chaves, o que hoje é muito engraçado: nem eu mesma recordo o significado de determinadas palavras, parte de meu passado é indecifrável até para mim.

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